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Jornal'Ecos:
Você nasceu no interior da
Bahia. Relembrando essa
fase, hoje que já passou
por lugares diferentes e
mais requintados, quais as
lembranças que conserva?
GD:
Sim. Nasci no povoado de
Recife dos Cardosos, no
município de Ibititá -
Região de Irecê - Chapada
Diamantina Setentrional -
Baixo Médio São Francisco. Conservo
as melhores recordações de
minha infância e do meu
passado lá no Ser Tao da
Chapada Dia man tina... Sertão
da lavoura, dos vaqueiros, do
gado, dos garimpos, dos
bodes e cabras da peste, dos
pássaros enigmáticos.
Universo de viajantes e
aventureiros pelo vasto
mundo dos mistérios e da expressão
oral e escrita. Sertão de
Conselheiros e de muitos Canudos,
cenário dos Sertões de
Euclides da Cunha, das Vidas
Secas de Graciliano Ramos,
da Guerra do Fim do Mundo,
de Mário Vargas Llosa, Sertão
de Cem Anos de Solidão de
Gabriel, de O Quinze, de
Rachel de Queiroz; de
Além dos Marimbus e de
Cascalho, de Herberto Sales
e de Terra em Transe, de
Glauber Rocha; sem esquecer
de Maria Dusá; do
Coronel Horácio de
Matos de Lençois e de Militão
da Barra do Mendes e das
Brotas de Macaúbas e
das Lavras Diamantinas da
Chapada Velha... e do
Hermógenes, do Grande Sertão:
Veredas, de Rosa...Hermógenes
existiu e foi um personagem
real concreto que habitou de
verdade as pairagens do Sertão
da nossa encantada e
decantada Chapada
Diamantina. Da Bahia às
Minas... Sertão dos
Revoltosos da Coluna
Prestes, dos jagunços e
cangaceiros, de Lampião,
Corisco, Zé Baiano, Manoel
Quirino, Volta Seca, Volta
Grande...da mulher rendeira,
da asa branca, da triste
partida e da feliz
chegada...Sertão que meu
cor ação habita agora e
sempre...sertão de meus
sonhos e fantasias, dos
devaneios e navegações
pelo infinito das
estrelas...Conservo na
lembrança um tempo mágico
inesquecível... uma epopéia
poética e fantástica de um
menino do interior do Sertão
da Chapada Diamantina: Os
tanques Velho e Novo, as
pequenas lagoas e
aguadas...as cacimbas...os
canoões, o açude, as
lapas e grutas, os caldeirões
na rocha. as pedras,
arrecifes e os rochedos
monumentais...as serras
azuis a perder de vista no
horizonte do além...os
tropeiros, loucos ,
aventureiros, os carros de
boi; os vendedores
ambulantes, o circo; feirantes,
modistas, aventureiros... As
história de defuntos-almas
do outro mundo... do
lobisomem, de João Cego, de
Dona Hilda do Pescoço Torto
e da Senhora que não se
pode falar o Nome A
Pelada...histórias do Romãozinho...As
peripécias de Pilão
Deitado, de Zé Preto, Zé
de Lé e de tantos Zés
e Marias... ah os
ciganos errantes e as
belas ciganas, as jogadoras
de cartas, de tarô e
as leitoras de mãos... Os
tanques...A venda, empório
que abastece os pequenos
lugarejos, arraiais e vilas
perdidas na imendidão
sertaneja...são tantas as
lembranças que daria
alguns causos, contos e
romances...quem sabe um dia?
Talvez eu memo posso
escrever algo.. Um dia
desses...
Jornal'Ecos:
Seus pais estimularam o amor
à genealogia, ou nasceu de
seu próprio estudo e
curiosidade?
GD-
Sempre houve uma tradição
genealógica que me foi
transmitida pelos meus
antepassados de ambos os
lados. Há um forte laço de
consangüinidade entre os
meus familiares. Além de
um culto às raízes, às
tradições e aos
antepassados, suas gestas,
feitos, lutas e epopéias...
Tenho origem nos antigos
bandeirantes da
Bahia(Gabriel Soares de
Souza; Melchior Dias Moréia;
Matias Cardoso de Almeida,
Matias Cardoso; Mateus Nunes
Dourado)) das Minas, de
São Paulo e de Portugal,
que alcançaram
os sertões de Jacobina, do
Morro do Chapéu, do Gentio
do Ouro, das Lavras
Diamantinas, da Chapada
Velha e da Nova América/América
Dourada/Rochedo/Lapão (Irecê),
em busca do ouro e das
pedras preciosas e também
influenciados pelo ciclo
do gado e pelo
desbravamento e conquista do
Rio São Francisco e de seus
vários afluentes(Verde;
Jacaré;) ... Os
Dourados sempre estiveram
ligados ao ouro, desde
tempos imemoriais lá pelas
bandas do Rio Douro, do
Porto e muito antes, com os Douros,
os Dórons e os Celtas
da Idade Antiga e da
Europa medieval. Houve um
estímulo natural da
família(pai, mãe, tios,
primos, parentes e avós) e
e também a pesquisa,
a curiosidade e muito
estudo. Além da Bíblia que
é um tratado de Genealogia
e epopéias, principalmente
o Pentateuco e os
livros do Velho Testamento e
a Bíblia foi o meu livro de
cabeceira na infância e
na adolescência e
ainda hoje o é. Recebi
influências de alguns
genealogistas da Família:
Roldão e Sebastião
Dourado, quando morei na
cidade de Irecê, a nossa
amada Terra do Feijão. Também
fui influenciado por Maria
de Messias de Castro Marques Dourado;
Anália França Dourado; Dalila
de Castro Dourado e por João
Cardoso, Tolentino e João
Azevedo Dourado, além de
Ulisses Marques Dourado(Pai)
e Edelzuíta de Castro
Dourado(Mãe) e pela
marcante cultura oral do
interior.
Jornal'Ecos:
Acha que um ambiente agreste
pode ter mexido com sua
imaginação trazendo todo
um mundo de fantasia e
facilitando seu dom natural?
GD-Sim...e
como...muito mesmo. O sertão
é uma fantasia permanente.
Uma ilusão real como
um oásis no meio do
deserto. Em nós sertanejos
habitam desertos repletos de
oásis e estrelas vadias. O
sertão nos inspira com a
Caatinga, as cantigas, as
procissões, as fogueiras, os
pássaros e animais, os
vaqueiros; as lendas, as
inscrições rupestres, os répteis
e cobras; os rasos, os
groseiros, os lajedos, os
mandacarus, os xique-xiques,
cabeças-de-frade, os
caroás, as juremas, os
mulungus, as barrigudas, as
palmas, os quiabentos, as
faveleiras, os icós, ingás, os
juazeiros e os
umbuzeiros...o umbuzeiro é
uma entidade no meio da
caatinga. Ele prolonga a
vida dos sertanejos. As
dificuldades nos impostas
pela natureza fazem do
sertanejo um ser duro, seco,
esquálido, resistente,
mas de alma gigantesca e
fraterna. O Sertanejo é
antes de tudo um Forte, como
disse o mestre Euclides da
Cunha. A vida no sertão é
drástica, difícil, caótica.
Mas tem momentos de
grandiosidade, de romance,
de novela e de
alegria...somos personagens
de contos e causos a cada
rancho, choupanas, casebres
e pequenas roças e
fazendas. A roça é uma
extensão da casa e de quase
tudo. É na roça que o
homem do sertão se realiza.
O Sertão é um dom natural,
uma fantasia que nos encanta
por toda a vida...lá se
diz: Aqui é a terra onde
pouco chove, mas o mato é
verde...por isso as ilusões
da seca verde. São
provocados pela riqueza do
solo e pelos aqüíferos e
rios subterrâneos que
precisam ser melhor
aproveitados para a irrigação
da lavoura e para facilitar
a realização dos afazeres
do cotidiano e mudar a vida
agreste que se leva, sem
assistência, sem governo,
sem Estado.
Jornal'Ecos:
Algum fato ali já o ligava
à literatura? E por que?
GD-
Tudo... praticamente
tudo...O Sertão é uma
gesta, uma epopéia
permanente. A literatura
oral está na alma e no convívio
das pessoa no dia-a-dia. Há
os causos, contos e histórias
incríveis, fantásticas,
maravilhosas e muitas histórias
reais, tristes e difíceis
de acreditar. Convivi no
meio de contadores de histórias,
autênticos cronistas,
contistas, narradores e
romancistas. Quase todos os
sertanejos tem uma história
para contar. A aventura faz
parte de nossa lida. O sertão
é pura literatura... é um
grande romance que
quer ser decifrado e
compreendido... e que já o
foi em parte por nomes como
Luiz Gonzaga; Zé Ramalho; Graciliano
Ramos; José Lins do Rego;
José de Alencar; Guimarães
Rosa; Valfrido Moraes; Américo
Chagas; Afrânio Peixoto;
Lindolfo Rocha; Herberto
Sales; Jorge Amado;
Adonias Filho; Bernardo Élis;
Domingos Olímpio; José
Américo de Almeida; Raquel
de Queiroz; Franklin Távora;
Dias Gomes; Patativa do
Assaré; Raul Seixas, entre
tantos outros....
Jornal'Ecos:
Escrevia desde a infância?
E o que realmente o motivou?
GD-Sim...
a própria vida que se
vive em nosso Sertão
do Deus Dará... e muita
leitura e observação dos
fatos e acontecidos. Desde
que me entendo já
tinha a mania de escrever e
de inventar palavras e
frases. Comecei com a
Poesia Oral. A literatura
verbal, as adivinhas, as
parlendas, causos e contos,
que por lá se chama história. Prestava
atenção no que falava os
mais velhos, os familiares e
os transeuntes. Tive muitos
motivos para escrever e
improvisar. Os encontros na
Venda, nos tanques, nas roças,
nas feiras dos povoados, nas
casas de família. As histórias
de reis e rainhas e dos
seres mitólogicos e dos
bandos de jagunços e
cangaceiros. É forte a
presença da passagem dos
"Mandiocas e
Mosquitos"; da
Coluna Prestes, de Horácio
de Matos, Militão, Vítor,
Zé Matias, Hermógens, Eusébio e
Manoel Quirino, de
Lampião, Corisco, Volta
Grande, Volta Seca, Labareda
e de tantos outros líderes
e chefes de bandos. A lei
era feita à base da faca,
do punhal, da cartucheira,
da espingarda, do parabellum,
da repetição e da
palavra... A palavra sempre
foi a principal arma. A
palavra por lá era uma
entidade...hoje tudo está
meio mudado com a tal da
televisão, da Internet e
de tantos modernismos e
novidades.
Jornal'Ecos:
Quais os escritores que
marcaram sua vida literária.?
GD. Foram
e são tantos. Em
primeiro lugar (num
momento inicial), os
autores populares,
contadores de historias e
cultores da Literatura Oral
e da Literatura de Cordel. o
Poeta Castro Alves;
Jorge Amado; Graciliano
Ramos; Euclides da Cunha;
Raquel de Queirós; Monteiro
Lobato; Ruy Barbosa; Charles
Dickens; José de Alencar;
Ellen White; John
Bunnyan; David
Wilkerson; Os
cordelistas e cantadores
repentistas: Zé de
Duquinha e Rota,, os Irmãos
Bandeiras; os Irmãos
Batistas;os autores bíblicos:
São João do Apocalipse;
Daniel; Moisés; Ezequiel;
Salmos e Provérbios; livros
religiosos e evangélicos;
Erich Von Daniken; Colunas
do Caráter; Nutrição e
Vigor; Então Virá o Fim; A
Ciência e o Espaço Cósmico;
As Plantas Curam; os
catecismos; os folhetos de
cordel/ABCS; as
cartilhas; livros de admissão
ao Ginásio; o
Burrinho Pedrês; o
Flautista de Hamelin; os
escritores e artistas
ambulantes... livros de
bolso, revistas em
quadrinhos; Flash Gordon;
livros de ficção científica;
revistas Planeta e Veja.
Enciclopédias Rumo à
Cultura; Delta La
Rousse; Conhecer; Life;
Time; Tecnirama; Dicionários;
Coleção Livro Eletrônico; Livros
de Estudos Sociais; História;
Geografia; Português
e Literatura em geral. É
preciso destacar a
presença determinante do Rádio.
Rádio Tupi; Globo;
Sociedade da Bahia;
Sociedade de Feira de
Santana; Rádio Clube de
Pernambuco; Jovem Pan; El
Dorado; Excelsior; Mundial.
Rádios estrangeiras e um
pouco da televisão de 1972
a 1975. Autores e
livros que me
influenciaram ainda na
Bahia, até 1975. É
preciso destacar que de 1972
a 1975 trabalhei como
auxiliar de biblioteca
na Escola Polivalente de
Irecê, onde li muitos
livros e fui Diretor
do Clube de Leitura.
Participei do Clube de
Ciências e fui Diretor e
Orador do Grêmio Estudantil
Assis Chateaubriand. Recebi
também a influência dos
irmãos Altamirando e Carlos
Augusto Macedo; do bibliotecários
Clélio e Neurizete; dos
professores Luiz Antônio;
João Almeida; Margareth; Luís
Antônio; Luís Orlando, Augustos; Lauro
Galvão Dourado e de Lauro
Adolfo Dourado, à época, intelectuais
da Região.
Num
segundo momento, já em Brasília,
a partir de 22 de
dezembro de 1975 até 1985
tive uma fase de muita
leitura. No Colégio Agrícola
de Brasília onde estudei e
residi de 1976 a 1978, tive
a oportunidade de conhecer
melhor novos autores
como Machado de Assis;
autores russos, franceses e
americanos: Reich;
Freud; Gibran; Carlos
Drummond de Andrade;
Autran Dourado; Michel
Quoist; Lobsang Rampa; Alan
Kardec; Chico Xavier; Émile
Coué; Henry Charriére;
Robert Charroux, vários
autores estrangeiros e
outros diversos.
A
minha fase áurea de leitura
foi na UnB, de 1979 a 1985,
onde li centenas de autores,
por recomendação dos
professores Cassiano Nunes;
Maria de Jesus Evangelista;
João Ferreira; Aglaeda Facó;
Oswaldino Marques; Yves
Challout; Danilo Lobo;
Diana Bernardes;
Antônio Salles; Luiz Piva;
Domingos Carvalho da Silva;
Lílian Zamboni; Sérgio
Waldeck de Carvalho; Antônio
Barros; Stella Bortoni; Júlio
Melatti; Lúcio Castelo
Branco; Angélica Madeira;
Venício Lima; Manoel
Vilela; Climério Ferreira;
Fernando Correia Dias;
Luís Tarlei de Aragão;
Eudoro de Sousa; Guillermo
Termenon de Sollis;
Celestino Pires, Ronaldes
de Mello e Souza, entre
tantos outros mestres. Li os
clássicos da Literatura
Mundial e os livros
fundamentais da Literatura
Brasileira e da Literatura
Latino - Americana. Tive a
oportunidade de participar
dos Encontros Internacionais
da UnB; dos Encontros
Nacionais de Escritores e de
vários seminários, simpósios
e debates literários. Em
1980 conheci Ferreira Gullar;
Paulo Freire; Luís Inácio
Lula da Silva; Fernando
Henrique Cardoso; Ignácio
de Loyola Brandão; Márcio
Souza; Roberto Schwartz; Jorge
Mautner; Pompeu de Souza; Fernando
Gabeira, Florestan
Fernandes, Antônio Houaiss,
José Paulo Neto, Paulo
Leminski, no meu período
de militância
estudantil na UNE, no Centro
Acadêmico de Letras e no
Diretório Central de
Estudantes. Tive a
oportunidade de conhecer e
dialogar com Jorge Amado; Umberto
Eco; Octávio Paz; Mário
Vargas Llosa, Cora
Coralina; Bernardo Élis; Gianfrancesco
Guernieri; Gilberto Gil; Haroldo
e Augusto de Campos;
Antônio Callado; João Antônio;
Caetano Veloso; Tom Zé;
Cristovam Buarque; Ziraldo; Francisco
Alvim; Plínio Marcos;
Orlando Tejo; Ivanildo Vila
Nova; Machado Nordestino;
Sebastião Nunes Batista;
Raul Seixas; Zé Ramalho;
José Celso Martinez
Correia; Itamar Assunção;
Arrigo Barnabé; Affonso
Romano de Sant'Anna; Márcia
Macedo; Darcy Ribeiro; Paulo
Mendes Campos; JJ Veiga; Mário
Chammie; Mário Quintana; Renato
Russo; Vladimir Carvalho e Sílvio
Tendler. A Biblioteca
da UnB era de bom nível
e tive a oportunidade de ler
bastante, pois era residente
no Centro Olímpico da
Universidade - Alojamento
Estudantil, relativamente próximo
à Bilioteca Central.
Praticamente li de tudo na
UnB. De Marx a James Joyce;
de Mário a Oswald de
Andrade; os Modernistas e os
contemporâneos de todas as
tendências. Na UnB tive uma
boa participação no
Movimento Estudantil. Fui
Delegado da UNE; do DCE e
Diretor criador
do CALEL - Centro Acadêmico
de Letras, com Sâmia Kouzak
e Maria do Rosário Caetano.
A minha maior participação
foi no Movimento Cultural
com performances; recitais
de poesias; eventos literários
e culturais; As Semanas
Culturais como a Expoarte 6;
7 e 8; o Show do Arroto; o
Flimpo; o Cuca -
Movimento Candango de
Dinamização da Cultura; O
Movimento pela Anistia Política
e pela Autonomia de Brasília,
com Pompeu de Souza e
Maurício Correia...
Jornal'Ecos:
Quando sentiu que seria
realmente um escritor houve
algum fato que o predispôs
a isso?
GD-Senti
que seria Escritor quando
observei as estrelas do magnífico
céu do Sertão e
percebi a grandeza da sua
gente...Quando senti as
dificuldades vividas pelo
povo e o sofrimento imposto
pelo descaso das autoridades
e do Estado autocrático
e discriminatório... Aí vi
e senti que teria de
escrever algo para
denunciar tantas
arbitrariedades e mentiras
impostas pelos
poderosos...Ao constatar que
apesar de tanta riqueza, a distribuição
de renda é muito
concentrada nas mãos de
poucos, fato que provoca a
injustiça e a miséria
tão presente em nosso
País...Até quando?
Jornal'Ecos:
Você é autor de nove
livros. No primeiro que
publicou poderia falar como
foi esse processo de elaboração e
a sensação quando viu o
livro em suas mãos?
GD-
Quase morri de emoção...
Foi um momento mágico.
Tentei por vários anos
publicar o primeiro livro
e sempre era barrado pelas
dificuldades ou pela má fé
de alguns pretensos
editores. O livro é como se
fosse um filho, um pedaço
de nossa alma.
Meu
processo de criação é
amplo é complexo às
vezes simples... quando
cordelo, elaboro a linguagem
da poesia viva, da poesia
oral, presente na
criatividade de nosso
povo...o cordel é poesia
pura, tem do mais simples até
o mais elaborado...é uma
linguagem riquíssima que
influenciou grande
escritores e artistas como Zé
Ramalho, Gláuber
Rocha, Raul Seixas, Chico
Science, Jorge Amado e
Guimarães Rosa... Em mim o
cordel vem do berço, de
nascença... aprendi a ler
em cordel ouvindo os
cantadores repentistas,
aboiadores, emboladores,
coquistas, trovadores,
contadores de história...
Convivi muito com
pernambucanos, alagoanos,
paraibanos e nordestinos em
geral, lá nos primórdios
de minha infância. Meu pai
foi lavra.dor de dia e dono
de venda à noite e nos fins
de semana...sempre ouvia
causos e cantos, contos,
loas, aboios, lendas, estórias
da carochinha...o sertão é
repleto de histórias, mistérios
e superstições. É riquíssimo
o misticismo da caatinga e
do cerrado. Misturei a mística
da Chapada Diamantina e do
Rio São Francisco, com a
magia e a modernidade do
Planalto Central, a inovação
construtiva e arquitetônica
de Brasília. Aqui, convivo
com artistas de todas as
tendência e matizes.
Busca-se uma nova arte que
sintetise a vertente
sertaneja com a pós-moderna...Creio
que Phalábora seja um pouco
dessa mistura entre o
erudito e o popular, entre o
concreto e o abstrato, com
pinceladas do místico e
doses do dialético... A
minha criação dá-se no
cotidiano, é flexível e
variável, sou um matuto com
trejeito de intelectual,
trans-piro com a palavra,
respiro o verso a cada
instante, leio sempre,
admiro (a)os mestres da
linguagem, Machado,
Graciliano, Pessoa, Joyce e
Guimarães Rosa, por excelência.
Tem também o lado bíblico,
apocalítico, profético,
glauberiano, proveniente do
misticismo sertanejo e ecológico
do Cerrado e da Magia da
Chapada Diamantina e do
Planalto candango. Meu
misticismo é cósmico, vai
de Apocalipse, Padre Cícero,
Frei Damião, Lampião, Antônio
Conselheiro até Tia Neiva,
Yokannam, Pietro Ubaldi,
General Uchôa, São
Francisco de Assis, Chico
Xavier, Vedas, Mahabarata,
Aknaton, Plêiades,
Tutankamon, Ybez, Fawcett,
até o universo dos
governantes invisíveis, do
misterioso desconhecido, dos
mistérios da umbanda, dos
orixás, dos xamãs e pajés,
até à sabedoria iniciatica
das idades, da teosofia,
Teurgia, Eubiose, da cabala/caabala,
dos povos antigos, dos incas,
dos egípcios e dos maias...
Sou um espiritualista com os
pés no chão. Um
pan-materialista trans dial
ético nas estrelas e no
cosmos...sem esquecer a
realidade do dia-a-dia e da
noite - a - noite de nossa
sagrada Poesia de cada
momento...
Jornal'Ecos:
A literatura é primordial
para você ou a pratica para
exteriorizar suas inspirações
e talento?
GD-
É primordial...é tudo...é
minha vida...minha
alma...Com a literatura
exteriorizo o meu sentimento
e as minhas emoções.
Literatura é uma mistura de
talento, inspiração e
muita transpiração, muito
esforço pessoal e bastante
suor derramado, além de
leitura constante e
atualização permanente.
Jornal'Ecos:
Como escritor, professor de
português e literatura o
que acha da educação em
nosso país e o que deveria
ser feito para que conseguíssemos
definições?
GD-
A Educação no Brasil
precisa ser prioridade, como
é prioridade a dependência
ao FMI e o desmonte do
patrimônio público e a
entrega de nossas riquezas
por moedas podres e a preço
de banana...Sem educação
de qualidade seremos uma
eterna província dependente
dos países ricos, dos
organismos e empresas
internacionais... Mais
investimento e amor à
camisa... à causa do saber
. Precisamos de um exército
de Paulos Freires, Anísios
Teixeiras e Darcys Ribeiros
para lutarem pela Educação
e pela Cultura.. É preciso
priorizar a educação em
todos os níveis e
democratizar as
oportunidades. Livros e
estudo gratuito para todos.
Construir escolas e
bibliotecas públicas de
qualidade em todos os
municípios brasileiros.
Menos enrolação e mais
verba para a educação...parodiando
o movimento estudantil. É
preciso uma força-tarefa
atuante em todos os municípios
brasileiros para acabar com
a chaga do analfabetismo que
atravanca o nosso País...
Urge.
Jornal'Ecos:
As figuras de Lampião e o
cangaço no Brasil são
descritas por Gustavo
Dourado com sabedoria. O que
o levou a escrever sobre o
assunto de forma tão
abrangente?
GD-A
realidade em que se vive. As
contradições do meio...As
injustiças que se cometem
sobre o assunto,
principalmente sobre Lampião,
que foi um grande bandido e
ao mesmo tempo foi poeta e
contestador. Tornou-se uma
lenda , um herói...um
anti-herói... um personagem
da poesia, do folclore, do
romance e da literatura de
cordel. Lampião nasceu das
contradições do
sistema oligárquico e
das mazelas do latifúndio.
Precisamos de um Lampião
para por o FMI e os
opressores na Roda...Viva
Lampião...
O
rei do cangaço
Gustavo
Dourado
Lampião nasceu das contradições
e conflitos da terra, da
violência do campo imposta
pelos coronéis latifundiários,
políticos corruptos e do
clero aliado da aristocracia
sertaneja e da burguesia
litorânea. Eternizou-se
como mito da cultura
popular. Virou lenda no
Brasil de Sul a Norte,
principalmente nas regiões
Norte e Nordeste.
Influenciou a música
popular nordestina.
Apimentou os acordes de Luiz
Gonzaga e de centenas de
sanfoneiros, violeiros,
repentistas e cordelistas.
Seu sangue corre nas veias
do xaxado (dança dos
cangaceiros), no xote, no
baião e no forró.
“É Lamp, é Lamp, é Lamp.
É Lamp é Lampião. Seu
nome é Virgulino, o apelido
é Lampião”. Este é o
hino consagrado ao rei do
cangaço pelo Brasil. Um
canto que eclode nas
caatingas, no agreste, no
Raso da Catarina, na Serra
do Apodi, nos cariris, Serra
Talhada, tabuleiros, lugares
por onde passou o célebre
cangaceiro.
Virgulino
Ferreira da Silva nasceu em
Vila Bela, atual Serra
Talhada – alto sertão
pernambucano – no ano de
1897. Ano trágico do
massacre de Canudos, onde
foram assassinados milhares
de camponeses. Da estirpe de
Antônio Conselheiro, o
famoso beato e líder político-religioso
que inspirou Os Sertões,
obra-prima de Euclides da
Cunha, Lampião foi
cangaceiro, uma categoria
acima de jagunço. Com ele,
muitos jagunços –
vassalos dos coronéis –
ascenderam à posição de
cangaceiro que era símbolo
de independência e
individualidade. O soldo do
cangaceiro dependia do que
se conseguia em saques,
sequestros, assaltos a
fazendas e cidades. Lampião
era generoso e bom pagador.
Franqueava aos cabras do
bando ações individuais
que rendiam alguma remuneração.
O reino de Lampião durou de
1914 a 1938. Atraiu muitos
jagunços e coiteiros de
todo o Nordeste numa época
crítica, sem muitas opções
de trabalho. Calcula-se que
seu grupo tinha em torno de
120 membros.
Lampião viveu todos os
conflitos de seu tempo
quando o sítio de seu pai,
José Ferreira, em Vila
Bela, foi invadido pelo
fazendeiro João Nogueira e
seus capangas.
Invadiram
as terras dos Ferreiras,
cortaram orelhas dos
animais. Fizeram emboscadas
e trapaças, em 1911. Os
Ferreiras fugiram para um sítio
no interior de Alagoas e se
desentenderam com o
subdelegado da região que
invadiu o local e matou o
pai de Lampião.
Aos 23 anos, após o
assassinato do pai, Lampião
tornou-se cangaceiro. Levou
consigo os irmãos Ezequiel,
Antônio e Livino. O apelido
de Lampião foi dado pelos
homens do bando de Sinhô
Pereira que iniciou o jovem
Virgulino no cangaço. Reza
a lenda que Virgulino
atirava muito bem e que o
seu fuzil parecia iluminado.
Atribui-se a ele a frase:
“Meu fuzil não nega
fogo”. A frase foi
retrucada por outro
cangaceiro que disse: Então
não é fuzil, é lampião”.
O apelido pegou e virou mito
no sertão de Deus-dará.
Lampião herdou o comando do
bando de Sinhô Pereira aos
25 anos. A partir de 1926
algumas mulheres foram
incorporadas ao bando. Lampião
conheceu Maria Bonita em
1929, então mulher de um
sapateiro. Fez a corte à
bela Maria que abandonou o
marido e optou pelo cangaço.
A caçada a Lampião e seu
bando terminou no dia 12 de
agosto de 1938. O cangaceiro
foi morto aos 40 anos, a 3
quilômetros do Rio São
Francisco, na grota da
fazenda Angico. Época em
que o rei do cangaço estava
distraído, preocupado com a
sua Maria Bonita que vivia o
drama da tuberculose. A
tropa do tenente João
Bezerra recebeu o serviço
do coiteiro de Lampião
Pedro de Cândido que,
segundo consta, teria levado
bebida envenenada para os
cangaceiros. Não houve
luta. Os homens estavam bêbados
e dormentes. Onze
cangaceiros foram mortos,
incluindo Lampião e Maria
Bonita. Vinte e quatro
cangaceiros fugiram pelo
sertão. Acabou-se, aí, o
reinado de Lampião. Mas a
lenda continua.
Jornal'Ecos:
Você é um mestre em
cordel. Acha que essa
categoria expressa a
verdadeira riqueza de nosso
povo?
GD-
Muito. o Cordel é a alma da
Poesia do Nordeste e do Sertão.
Influenciou os principais
autores da Literatura
Brasileira. Autores como
Ariano Suassuna; Castro
Alves; Jorge Amado; Luís da
Câmara Cascudo; Mário
de Andrade; Graciliano
Ramos; José de Alencar; José
Lins do Rego; Rachel
de Queiroz; Guimarães
Rosa; Orígenes Lessa;
Monteiro Lobato; Hermilo
Borba Filho; Hermínio
Bello de Carvalho; José Américo
de Almeida; Franklin Távora;
Ascenço Ferreira; Cora
Coralina; Bernardo Élis;
Manuel Bandeira; João
Cabral de Melo Neto; Mário
Lago; Marcus Accioly; Antônio
Callado; João Antônio;
Dias Gomes; Carlos Drummond
de Andrade; Orlando
Tejo; Vânia Diniz; Luiz
Alberto Machado; Soares
Feitosa; Franklin Machado;
Paulo Dantas; José Condé; Glauber
Rocha e artistas como Raul
Seixas; Luís Gonzaga; Zé
Ramalho; Ednardo; Belchior;
Alceu Valença; Quinteto
Violado; Chico Science;
Chico Cézar; Raízes;
Miran; Nando Cordel; Zeca
Baleiro; Fagner; Elba
Ramalho; Geraldo
Azevedo; Tom Zé; Caetano
Veloso; Gilberto Gil;
Geraldo Vandré; Chico
Buarque; Téo Azevedo;
Elomar; Xangai; Décio
Marques; Americano;Jorge
Mello; Elba Ramalho;
Amelinha; Catulo da Paixão
Cearense e tantos
outros. Nomes importantes
estudaram o cordel como
Raymond Cantel e Silvie
Raynal, da Sorbonne; Mark
Curran, da Universidade do
Arizona; Joseph Luyten
e no Brasil nomes como Luís
da Câmara Cascudo; Leonardo
Mota, Cavalcanti Proença;
Manuel Diegues Júnior;
Jerusa Pires Ferreira, Sebastião
Nunes Batista e Adriano
da Gama Khoury...Transcrevo
aqui um breve artigo que fiz
sobre a Literatura de
Cordel:
Literatura
de Cordel
Gustavo
Dourado
A
Literatura de Cordel, mais
que centenária... tem suas
origens ocidentais e pré-medievais
no universo poético de
Provença, França, e ganhou
estatura poética com
os trovadores provençais albigens(com
destaque para Arnaud Daniel
e Rimbaud Daurenga).
As influências são
multidiversas: desde a
poesia árabe, mediterrânea,
hindu e persa à poética egípcio-hebréia-
greco-latina e afro - indígena...
Entretanto,
a Poesia de Cordel tem a sua
força na expressão
ibero-lusitana - brasilíndia
- nordestina e
galego-castelã...
Foi na Espanha e em
Portugal, que a poesia de
cordel ganhou feição e essência
literária.
É na poesia cavalheiresca e
trovadoresca que o cordel se
inicia de forma pungente e
pujante, principalmente a
partir dos 12 pares da França,
de El Cid, O Campeador e da
obra monumental de Camões,
Gil Vicente e Cervantes,
ambos influenciados por
Dante Alighieri.
Os reis trovadores Dom Diniz
e Dom Duarte foram os nossos
mais destacados precursores
ibéricos.
A Literatura de Cordel foi
enriquecida pela
criatividade e maestria de
Gil Vicente, Camões, Gregório
de Matos, Bocaje, Castro
Alves, Rabelais, Cervantes,
Catulo da Paixão Cearense,
Ascenso Ferreira, Juvenal
Galeno e dos mestres e
pesquisadores da cultura
popular: Leonardo Mota, Luiz
da Câmara Cascudo, Ariano
Suassuna, Cavalcanti Proença, Jorge
Amado, Glauber Rocha, João
Cabral de Melo Neto, Rachel
de Queiroz, José Américo
de Almeida, Manuel Diegues Júnior, Sebastião
Nunes Batista, Sílvio
Romero, Vicente Salles, Téo
Azevedo, Orígenes Lessa, Mário
Lago, Jerusa Pires Ferreira,
Joseph Luyten, Mark Curran,
Silvie Raynal, Raymond
Cantel, Zé Ramalho e tantos
outros nomes de destaque.
No Brasil, o cordel ganhou
estatura poética no
Nordeste do Brasil, pelas
bandas do Sertão do Cariri,
do Pajeú, da Serra do
Teixeira, Campina Grande, João
Pessoa, Caruaru, Juazeiro do
Norte, Crato, Recife,
Fortaleza, Salvador, Serra
Talhada, Mossoró, Caicó,
Paulo Afonso, Feira de
Santana, Juazeiro, Petrolina,
Irecê, Chapada do Apodi,
Serra da Borborema, Chapada
Diamantina, Rio, São Paulo,
Brasília, Ceilândia e
pela vastidão dos
lugarejos, arraiais, vilas e
cidadelas da caatinga e do
agreste, com os vates -
poetas Leandro Gomes de
Barros, Rodolfo Coelho
Cavalcante, Francisco Chagas
Batista, Francisco Sales
Areda, Manoel Camilo dos
Santos, Minelvino Francisco
da Silva, Caetano Cosme da
Silva, João Melquíades
Ferreira da Silva, José
Camelo de Rezende, Teodoro
Ferraz da Câmara, João
Ferereira de Lima, José
Pacheco, Severino Gonçalves
de Oliveira, Galdino Silva,
João de Cristo Rei, João
Ferreira de Lima, Antônio
Batista, Laurindo Gomes
Maciel, Manuel Pereira
Sobrinho, Antônio Eugênio
da Silva, Augusto Laurindo
Alves( Cotinguiba), Moisé
Matias de Moura, Pacífico
Pacato Cordeiro Manso, José
Bernardo da Silva, Cuíca de
Santo Amaro e João Martins
de Athaide, Francisco
Gustavo de Castro Dourado,
João Lucas Evangelista, Zé
de Duquinha, Audifax Rios e
Rubênio Marcelo, entre
outros nomes significativos
do passado e da atualidade,
dentre tantos baluartes da
Poesia Popular e do
Romanceiro do Cordel..
Convém ressaltar figuras de
destaque, mistura de
cordelistas e cantadores
como o Cego Aderaldo; Zé
Limeira, lendário Poeta do
Absurdo, de Orlando Tejo e
Patativa do Assaré, da
Triste Partida, Zé da Luz,
Raimundo Santa Helena e
Franklin Machado Nordestino.
Além de centenas de
cordelistas que divulgam os
seus trabalhos na Internet.
Temos até uma Academia
Brasileira de Literatura de
Cordel.
O cordel continua e
sobrevive, apesar das
idiossincrasias, intempéries
e dificuldades e das
antropofagias e pilantropias da
Indústria cultural midiática
e globalizante...
São imprescindíveis a
abertura de espaços e fóruns
de discussão e de publicação
de textos de cordel, de
autores tradicionais e
contemporâneos para
dinamização do movimento
da Poesia Popular
Universal...A Internet é um
espaço primordial...Que
viva a Literatura de
Cordel...
Jornal'Ecos:
Gustavo, Obrigada pela
brilhante entrevista.
GD-
Vânia Diniz
Mulher
múltipla, escritora filósofa
e jornalista ....
Nome
de destaque na Internet e no
campo das Artes e da
Literatura...
Agradeço
a oportunidade de responder
a tão importante Entrevista
.
Fraternalmente,
Gustavo
Dourado |