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Jornal
Ecos Entrevista a Escritora e Poeta Sandra
Fayad
Jonal'Ecos:
Fico feliz em entrevistá-la como
escritora competente e amiga. Você nasceu
em Catalão (Goiás). Poderia falar um
pouco de sua infância e qual foi o
acontecimento que marcou seus primeiros
anos?
Sandra:
Obrigada, Vânia.
Aqui publiquei minha primeira crônica
em julho de 2005, graças à atenção e
à confiança quase simultâneas com que o
Fernando e você me brindaram. Por esta
razão eu os considero meus padrinhos de
literatura. Respondendo
a sua pergunta, sou a primogênita de seis
irmãos. Nasci em casa no dia 15 de
fevereiro, em pleno domingo de carnaval.
No mesmo dia, nascia também Beatriz,
outra primogênita da vizinha, fazendo com
que a parteira - tia
Mariana
, hoje com 96 anos - corresse o tempo todo
de um lado para outro. O evento foi
triplamente festejado na cidadezinha, que
possuía cerca de dez mil habitantes.
Jornal'Ecos:
Qual a lembrança mais remota de sua infância
e que lembra até hoje?
Sandra:
As primeiras lembranças estão associadas
a duas perdas importantes.
Logo
que nasci, meus pais se mudaram para a
fazenda da minha avó materna, que ficava
a cinqüenta quilômetros de distância da
cidade, com um rio no meio, pelo qual se
atravessava de canoa. Era
uma região cheia de cobras venenosas. Vovó,
viúva ainda jovem, trabalhadora e
carinhosa, me paparicava muito. Quando eu
estava com dois anos, ela foi picada por
uma cobra cascavel. Papai tentou em vão
trazer socorro da cidade, enquanto eu
assistia à sua morte dolorosa. Não me
lembro de detalhes, apenas dos gritos de
dor, que foram sumindo, no interior da
casa da fazenda.
Aos
quatro anos, foi a vez do meu avô
paterno, que já era idoso e que nós
dizíamos que estava “caduco”.
Lembro-me vagamente dele.
Jornal'Ecos:
Como foi seu relacionamento com seus pais
e em que eles trabalhavam?
Sandra:
Papai abandonou a escola cedo e foi ser
pedreiro, profissão da qual sempre se
orgulhou. Na fazenda, aprendeu a lidar com
gado, agricultura e, por fim tornou-se
comerciante. Mamãe era professora rural e
tinha postura de nobre. Casaram-se porque
as famílias são árabes e assim
decidiram. Meus pais brigavam muito, mas
se mantiveram juntos por trinta e seis
anos, até que mamãe nos deixou
subitamente. Na Fazenda, vivíamos sob a
chamada economia de subsistência, onde o
papel-moeda era raridade. Trabalhava-se na
forma de escambo e empreitada. Quase tudo
que necessitávamos era produzido ali
mesmo, com muita fartura. Quando eu
completei sete anos, mandaram-me para a
casa dos tios maternos na cidade, para
estudar. Assim foi sendo feito com os meus
irmãos menores, durante alguns anos mais.
Mamãe considerava inadmissível que ficássemos
um ano sequer fora da escola regular. Nas
férias, voltávamos para a fazenda para
ajudar na lida diária. Mamãe dava aulas
em um galpão, que o papai construiu ao
lado da casa da fazenda, para crianças e
adultos desde a alfabetização até a
quarta série. Com nove anos, já na
terceira série, ela pedia que eu a
ajudasse a ensinar os meninos a segurar o
lápis e escrever o próprio nome. Eu me
sentia poderosa e geralmente ia mais além,
lendo a cartilha para eles, que ficavam me
ouvindo admirados.
Fomos
orientados dentro de padrões rígidos de
comportamento, que aceitávamos com
naturalidade. Se julgassem necessário, os
tios, avós, vizinhos, padre, freira e até
eventuais empregados nos aplicavam
corretivos, com total apoio dos pais. Não
me sentia infeliz ou traumatizada por
isso. Às
vezes havia exageros, mas meus pais não
podiam reclamar porque nós, crianças,
estávamos vivendo de favores na casa dos
outros.
Aos
onze anos, com a casa lotada de sobrinhos,
o irmão da mamãe que nos acolhia deu
“aviso prévio” aos meus pais quanto a
mim e ao meu irmão Carlos, de nove anos.
Então,
para que não interrompêssemos os
estudos, papai só teve como alternativa
levar-nos para o Rio de Janeiro, onde
moravam suas irmãs. Lá ficamos dois
anos, vivendo uma experiência de difícil
adaptação e solitária, apesar de todas
as novidades existentes na Cidade
Maravilhosa. A saudade da mamãe, dos
outros irmãos e dos amigos de infância
me levaram a dar os primeiros passos a
arte de escrever. Eram cartas que eu nunca
mandava e poesias que eu rasgava, para que
minhas tias não me considerassem ingrata
ou porque não queria revelar meus
sentimentos.
Aos
quatorze anos, nossa família voltou a se
reunir na velha casa onde nasci. Foi uma
felicidade enorme trocar o apartamento
novinho da Zona Sul do Rio de Janeiro por
aquela “tapera”
em Catalão. Aprendi
na prática que tudo é mesmo muito
relativo e que mãe, pai e irmãos são os
bens mais valiosos da vida. Talvez por
isso tenha dado muitas gargalhadas nessa
época, mesmo sem motivos aparentes.
Jornal'Ecos:
Da Bossa Nova o que mais lhe encantou e a
envolveu?
Sandra:
Tudo, durante todo o tempo. Na
“tapera” não havia TV, nem som. Mas
isto não era problema, porque tínhamos
um velho rádio de válvulas. Depois uma
amiga ganhou uma vitrolinha manual. Era
suficiente para ouvirmos, até
“rachar” o disco, a música” Upa
Neguinho”, do primeiro LP gravado por
Elis Regina e Jair Rodrigues, que estourou
em todas as paradas de sucesso. Tornei-me
fã de todos os compositores, cantores e
bandas (conjuntos ou grupos da época).
Era a Bossa Nova e a Jovem Guarda com a
riqueza poética e o rock brasileiro
enchendo nossas vidas de músicas de amor,
protesto e alegria. Sempre gostei de ambos
os movimentos. Não dá para enumerar
todos os talentos que quarenta anos depois
estão atualíssimos, como Tom Jobim,
Vinicius de Moraes, Ronado Bôscoli, Edu
Lobo, Nara Leão, Dick Farney cantando
“Copacabana”, “Chega de Saudades”
na voz de João Gilberto, Geraldo Vandré
com “Pra não dizer que não falei de
flores”, Chico Buarque com “A
banda”, Rita Lee, Zimbo Trio, Roberto e
Erasmo Carlos, Vanderléia, Martinha,
Eduardo Araújo e Silvinha, Jerry Adriane,
Vanderley Cardoso, The Golden Boys com
“Alguém na multidão”, The Fevers,
Renato e seus Blue Caps. Ainda faltam
muitos... Havia também os Ritmos Latinos,
The Beatles, The Rolling Stones, Elvis
Presley.
Ter
participado de tudo isso me mantém com a
sensação de poder, privilégio e
felicidade.
Jornal'Ecos:
Quando sentiu necessidade da literatura?
Sandra:
Minha adolescência e juventude foram também
contemporâneas de grandes questionamentos
políticos, sociais e psicológicos em
todo o mundo. Mesmo vivendo de forma
simples, no interior de Goiás, tive
acesso a muita informação. Conseguíamos
romances e livros sobre filosofia e política
com algum viajante. Normalmente eram
passados de mão em mão até todos terem
lido. Como tinha que devolvê-los logo,
enquanto lia, eu copiava nos cadernos as
frases e pensamentos que considerava mais
interessantes e que não conseguia
decorar. Dali saíram conclusões
importantes. O mundo era muito mais que a
minha pequena cidade. Era preciso explorá-lo,
para entendê-lo e tentar fazê-lo mais
justo. Então comecei a traçar planos poéticos
e a transportar-me para lugares longínquos.
Jornal'Ecos:
Sua formação é nas ciências exatas
(economia), porque exatamente a escolheu?
Sandra:
Estávamos em plena ditadura, sob a vigência
do AI-5. Enquanto ocorriam prisões,
torturas, comícios, eu ficava pensando
que, se o Brasil explorasse melhor seu
potencial agrícola, rapidamente seria um
país rico. Com todo o povo trabalhando,
estudando, bem alimentado, não teria razões
para que estudantes idealistas morressem
nas prisões defendendo idéias que, em última
instância, eram pregadas por revolucionários,
que queriam mesmo era assumir o poder.
Percebi que estes quase sempre escapavam
das prisões, deixando os estudantes no
campo de batalha contra a polícia. Por
esta razão, nunca participei de nenhum
movimento de protesto, embora não
concordasse com a falta de liberdade de
imprensa. Eu queria entender o lado prático
do Governo Militar: o que estavam fazendo
com o dinheiro do povo e quais os planos
que eles traçavam para nós, jovens da época.
Além disso, o Curso de Economia tem um
elenco de disciplinas que permitem uma
base mais completa para os programas dos
concursos públicos. De fato, foi muito fácil
ir passando nos melhores concursos.
Tornei-me uma servidora pública,
especializada nessa área.
Jornal'Ecos:
Quais os autores que mais leu e sentiu que
algum deles exerceu influência profunda
em seus escritos?
Sandra:
Morris West, Kalil
Gibran, Gandhi, Malba Tahan, Karl Marx, Mário
Simonsen -
todos eles me levaram a
pensar muito.
Dos
quatorze aos dezenove anos, li e anotei em
um livro de recordações que ainda
guardo, textos
de peças de Sheakespeare, Hegel, Lao-tseu,
Confúcio, Calderon de
La Barca
, Nehru, Franz Kafka, Voltaire, Castro
Alves, Graciliano Ramos, Ignácio de
Loyola Brandão, Fernando Sabino.
Mas
acho que as cartinhas tão bem escritas
pela mamãe, nas várias situações em
que ficamos separadas ao longo da sua
curta existência, é que mais me
motivaram a escrever.
Jornal'Ecos:
Como acontece seu momento de criação? É
num momento específico ou
simplesmente escreve e vai produzindo?
Sandra:
Bem, já conversei com alguns escritores e
descobri que o que acontece comigo é
bastante comum. Normalmente escrevo a
primeira frase e nunca sei onde vou parar.
Há dias em que escrevo mentalmente
durante as caminhadas matinais. Outras
vezes, olho para alguma coisa e faço um
verso instantâneo. Se fico muito tempo
sem escrever, sinto falta de ar, coceira,
insônia.
Jornal'Ecos:
Já realizou alguns de seus sonhos ou tem
uma idéia mais objetiva de suas realizações?
Sandra:
Sou bem humilde quanto a sonhos. Olho para
o meu passado e acho que já recebi uma ótima
cota de saúde, conforto e realizações
pessoais e profissionais. Mas não quero
abrir mão de nem um pedacinho do que
tenho, porque tudo foi chegando passo a
passo, dia por dia e tem muita simbologia
envolvida. Do ponto de vista da
literatura, não tenho opção: vou
escrever até o último dia da minha vida
(desejo viver cem anos), mesmo que só os
amigos mais generosos leiam. Não importa
se farei sucesso ou se me manterei anônima
entre tantos outros. Escrever me alimenta
e conforta.
Jornal'Ecos:
Quando chegou a Brasília o que trazia em
seu coração de desejos e o que sentiu na
capital
do Brasil, com poucos anos de
construída? Foram difíceis os primeiros
anos?
Sandra:
Brasília representava o caminho do futuro
e o futuro
em si. Era
a alternativa. Para mim, não havia outra.
A cidade e eu já nos entendemos no
primeiro momento, até mesmo porque éramos
parte de um mesmo espaço, o esquecido
Estado de Goiás. Estávamos começando
juntas uma vida nova. Vim para trabalhar,
estudar, construir, formar, criar raízes,
estabelecer uma plataforma para explorar
novos horizontes, como havia poetizado na
adolescência.
Foi o que aconteceu. Os planos iam
sendo colocados em prática
paulatinamente. Alguns sofreram atrasos,
outros precisaram vencer barreiras, pegar
atalhos, contornar, esticar ou encolher,
mas nenhum foi abandonado e todos estão
concluídos ou em fase de conclusão. Abençoada
seja para sempre esta cidade que eu amo de
paixão.
Jornal'Ecos:
Qual a sua realização mais emotiva e que
fez você achar que “vale a pena
viver”?
Sandra:
Vale sempre a pena viver muito, por muito
tempo. Diversas situações me emocionaram
e me emocionam. O último ano tem sido
extraordinário quanto a isso, Vânia. A
começar por você e pelo Fernando, que
surgiram do “nada” para me acolher com
total desprendimento, carinho e confiança,
como se me conhecessem a vida toda. Minha
família e meus amigos também são bênçãos
maravilhosas, pelas quais agradeço
sempre.
Jornal'Ecos:
Em sua vida pessoal, foi e é feliz?
Sandra:
Tenho quase tudo o que quero. Mas, se não
houver uma lacuna a ser preenchida, eu a
crio para ter por que lutar. Sou otimista,
cordata e calma, mas não gosto de me
sentir acuada ou injustiçada. Só preciso
ter uma saída de emergência. Minha
felicidade está intimamente relacionada
com a existência dela. Até hoje, não
dei por sua falta na caminhada. Portanto,
fui e sou feliz.
Jornal'Ecos:
O que á a Literatura para você?
Sandra:
Vejo a literatura como um rio, por onde
navegam muitos barcos, que se cruzam. Uns
vem da nascente, outros da desembocadura.
Há os que vem de um mar revolto e os que
subiram para os céus, mas continuam
navegando. Os
barqueiros detêm o conhecimento e a
experiência sobre os lugares por onde
passaram. Se eles apenas se cumprimentarem
e seguirem em frente, não há nada de mal
nisso. Mas se resolverem sentar à sombra
de uma árvore frondosa e mostrar aos
outros, com transparência, beleza e
suavidade, os perigos e as maravilhas
encontradas no percurso, estarão tornando
mais segura e agradável a próxima etapa
da viagem dos que se interessarem
em ouvi-los. E
cada um que fizer isso, será mais sábio
e fará mais sábios os que o escutarem.
Jornal'Ecos:
Atualmente quais seus sonhos mais freqüentes
e o que desejaria e “precisa”
realizar?
Sandra:
Há um projeto em andamento, que preciso
terminar. Trata-se de um livro de contos
com as experiências interessantes do
papai. Ele está com 91 anos e quer ver
suas estórias publicadas. Há também um
cantinho em meu coração reservado para o
amor.
Jornal'Ecos:
Como entrou na Internet e o que acha dessa
ferramenta extraordinária?
Sandra:
Normalmente planejo, em linhas gerais, as
etapas da minha vida. Em janeiro de 2005,
vendi a chácara que me tomava muito
tempo. Abriu-se então um espaço, digamos
que umas férias até a reforma da minha
casa, prevista e de fato iniciada em
julho.
Comecei
então organizar meus textos no word e a
participar de uns sites, para preencher o
tempo. Em um deles, conheci o Fernando
Oliveira. No segundo e-mail, enviei-lhe um
poema que acabara de escrever. Então ele
me indicou o endereço do Jornal para que
eu o conhecesse e o seu e-mail para que eu
me apresentasse a você.
A acolhida foi inesperadamente
maravilhosa. Poucos dias depois, lá
estava eu no link “Escritores Amigos”
e depois no Jornal' Ecos. Devo tudo a vocês.
Jornal'Ecos:
Sandra, Obrigada por sua brilhante
entrevista e agora há um espaço
ilimitado para que você possa se dirigir
aos seus leitores e falar de você, suas
esperanças e a forma como as pessoas
podem realizar seus objetivos. Agradeço o
carinho com que aceitou responder ao
Jornal'Ecos do qual você é uma
competente colunista.
Sandra:
Nada sei e nada posso, se eu quiser nada
ser e nada poder. Cada dia que vivo e que
presencio os mais variados acontecimentos
na vida das pessoas que me rodeiam, mais
certeza tenho disso. Não creio em má
sorte. Saúde, amor, bom emprego,
conforto, poder e honra, com raras exceções,
se conquista e se mantém.. Mas a ganância
tem se expandido como uma praga, levado as
pessoas a quererem o que é dos outros,
mesmo que não lhes sirva para nada.
Enoja-me saber que alguns seres se julgam
tão poderosos a ponto de aplicar blefes
internacionais, banalizando as vidas de
milhões de inocentes. Revolta-me saber
que há outros tantos que lhes dão
credibilidade, porque vêem nessa forma de
agir um exemplo a ser seguido, para a
obtenção de vantagens pessoais. Lamento
que tantos inocentes estejam tão vulneráveis
a tudo isso. Mas creio na sua capacidade
de reagir, através da informação e do
esclarecimento, na indicação de uma saída
e no oferecimento de uma lanterna acesa
por nós, escritores de todas as partes do
mundo. Sejamos a gota d’água na pedra
dura, sempre.
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