Jornal'Ecos da Literatura Lusófona

25 de Janeiro de 2006 - Edição N°33

 

 Colunas de.......... Sandra Fayad

Ano 2

 

Viva Brasília!

 
 

Em várias oportunidades viajando pelo País, tenho me deparado com indagações e afirmações variadas sobre como é e como funciona a rotina da nossa Capital.

Sou leitora de poemas e crônicas de autores que, como eu, divulgam suas obras e seus textos em sites da língua portuguesa. Há alguns dias, na importante Comunidade Maytê, deparei-me com um título que, de pronto, me chamou a atenção: “BRASÍLIA SERVIU ATÉ HOJE PARA QUÊ?” Um pouco incomodada, pus-me a ler o texto em destaque na coluna “Opinião”. Para melhor entender a posição exposta, fui ver a biografia do autor, Sr Aquiles Rique Reis, e imediatamente lembrei-me que sempre gostei de ouvir suas interpretações, já que é também um dos componentes do famoso Grupo Musical MPB-4, do qual possuo LP e CD.

Já que se trata de opinião, resolvi também dar a minha, que não será de fã para ídolo, mas de cidadã para cidadão. Nada contra o autor, apenas estou pegando este gancho para mostrar especialmente àqueles que vêem Brasília como berço da corrupção, que existem  elementos importantes para ajudá-los a conhecê-la antes de julgá-la.

No seu texto, Aquiles demonstra que desconhece a história desta cidade de apenas 45 anos de idade, quando afirma que sua existência não faz a menor diferença. Nos dois primeiros parágrafos, com todo o respeito à sua opinião de que foi uma “idéia de jerico” de Juscelino Kubitschek transferir a Capital do Rio de Janeiro para cá, gostaria de lembrar que, em 1823, José Bonifácio já apresentava à Constituinte projeto de transferência, sugerindo o nome Brasília para a nova capital. Em 1892, foi nomeada uma comissão, denominada Missão Cruls, que, depois de dois anos de estudos, demarcou uma área de 14.400 km², conhecida como Quadrilátero Cruls, considerada adequada para a instalação da futura capital; e em 1922, foi colocada a pedra fundamental da cidade de Brasília em um local perto de Planaltina (GO).

Nasci nesta região e tenho residência fixa aqui há 38 anos. Ao contrário de alguns que encontrei pelas minhas caminhadas, estou convencida de que, para milhões de outros brasileiros, Brasília fez e faz muita diferença sim. Vi na biografia do Aquiles que ele viveu praticamente toda a sua vida no eixo Rio-São Paulo e em Niterói. Talvez não seja do seu conhecimento que, naquele ano de 1960, levava-se três dias e duas noites para percorrer, por terra, os 1.200 km que separam o interior de Goiás do Rio de Janeiro. Eu mesma fiz essa viagem e sei o quanto era arriscada e cansativa. Compreendo que não lhe foi possível acompanhar a integração das regiões Norte e Centro-Oeste com o resto do País e o seu conseqüente desenvolvimento. Era tão somente metade do território nacional abarrotado de riquezas pouco exploradas, mão de obra quase cem por cento desqualificada e economia baseada apenas no atendimento às necessidades básicas de uma população, sem perspectivas de melhoria das condições de conforto, educação e saúde e seus conseqüentes desdobramentos.

 Há que se lembrar que as riquezas aqui existentes serviram de imediato para fortalecer as indústrias metalúrgicas, madeireiras e de laticínios, e que as obras de construção da cidade geraram milhares de empregos em todas as áreas da economia, causando um boom, a partir da trilogia dinamismo, trabalho e enriquecimento de muitas empresas e até de pessoas físicas de todos os recantos do País, que acreditaram e investiram no empreendimento.

Consideremos também os desdobramentos na geração de novos serviços na região beneficiada, como Construção Civil, Água e Energia, Educação, Saúde, Transportes, Beneficiamento de Grãos e de Derivados do Leite. A mão de obra local, por ser despreparada, recebeu reforço de especialistas insatisfeitos e ávidos por sair do marasmo em se encontravam nos grandes centros urbanos. Esses e todos os que ofereceram seus serviços à execução do projeto fizeram um bom pé-de-meia rapidamente. Funcionários Públicos Federais, a grande maioria morando em condições precárias nos subúrbios do Rio de Janeiro e endividadas, ganhavam até cinco salários a título de ajuda de custo, dois anos de “dobradinha”, apartamento funcional no centro da cidade e outras mordomias, para servir na nova Capital. Conheci gente bastante sincera que beijava o solo de Brasília, em sinal de gratidão; outros declaravam que iam ao Rio de férias com a família para curtir a praia, programa que não faziam quando estavam lá por falta de condições estruturais.

Eu e minha família fazemos parte de um grupo de milhares de pessoas que têm raízes nesta região e que aqui mudaram e/ou construíram a sua história de vida. Já somos quatro gerações beneficiadas com a transferência da Capital. Estamos certos de que o nosso futuro pensado ontem, o nosso presente e a realização dos nossos ideais estão estreitamente vinculados à existência desta cidade. Respeito a posição do meu ídolo quando afirma que se ela acabasse hoje, falta nenhuma haveríamos de sentir, mas devo dizer-lhe que quase todos os brasileiros, de uma ou de outra forma, têm uma dívida de gratidão a JK pela iniciativa audaciosa de implementar esta obra, que beneficiou principalmente os cidadãos que andavam sem horizonte e sem perspectivas por este País afora.

Portanto, Brasília já nasceu mãe de muita gente e adotou ou gerou filhos maravilhosos, que se orgulham dela. Na música, podemos citar Renato Russo, Dinho Ouro Preto (Capital Inicial), Herbert Viana (Paralamas do Sucesso), Zélia Duncan, Oswaldo Montenegro, Ney Matogrosso, Fred (Raimundos); nos esportes, Nelson Piquet (automobilismo), Kaká (futebol), Oscar Schimit (basquete), Marilson Gomes dos Santos (atletismo), César Castro (saltos ornamentais), Hugo Parisi (salto sincronizado), Rebeca Gusmão (natação), Mariana Ohata (triatlo), Leandro Macedo (triatlo), Luiza Rocha (boliche), Gabriela Crivelaro (ginástica rítmica desportiva); nas Artes, Françoise Fourton e Guilherme Reis (atores); nas Letras, Gustavo Dourado (Amargedom) e Vânia Moreira Diniz (escritores), e muitos outros.

Orgulhamo-nos de ter uma das melhores Universidades Públicas do País e dezenas de outras particulares, a mais bela ponte do mundo – a recém inaugurada Ponte JK -, um dos mais maravilhosos pores-do-sol do planeta, a melhor qualidade de vida das Capitais Brasileiras juntamente com Curitiba, um sistema de atendimento ao cidadão eficiente (testei-o recentemente e fiquei maravilhada), avenidas largas e arborizadas, respeito às faixas de pedestres e às regras de trânsito - aqui não se usa buzina; temos consciência ecológica e política; capacidade de conviver com as mais variadas manifestações culturais do País e do Exterior com atitudes, ao mesmo tempo, de respeito e absorção dos sotaques e hábitos, recebidos com boa vontade e incorporados naturalmente à rotina de todos, num processo de enriquecimento constante da cultura local.

  A maioria dos residentes gosta de viajar para o litoral no verão, mas volta cheia de saudades da mordomia que é viver aqui. Desta mordomia gostamos e até queremos mais. 

A corrupção e os desmandos políticos ocorrem no Brasil desde a sua colonização e tudo o que se vê hoje aqui, seria visto em qualquer outro lugar, especialmente na antiga capital, de onde é até mais fácil sair com malas de dinheiro para os paraísos fiscais, fazer conchavos com o mundo do crime, varrendo para debaixo do tapete o lixo que caracteriza o comportamento evidenciado recentemente na maioria dos nossos políticos e seus beneficiários. A população brasiliense nada tem a ver com isso. Tanto é verdade que tradicionalmente escolhe candidatos comprometidos exclusivamente com seus anseios. Elegeu para o Governo do Distrito Federal o Sr Joaquim Roriz, pela quarta vez. Trata-se de um cidadão oposicionista ao Governo Federal eleito em 2002, nascido aqui e que tem seus próprios interesses integrados aos da população. Encerra este ano seu último mandato com o aplauso da grande maioria das pessoas, a despeito de todas as tentativas de desestabilizá-lo por parte de seus opositores. Sai contando com o apoio de todos os candidatos bem cotados à sua sucessão e que disputam a sua preferência, cientes de que o eleito, mesmo com o apoio dele, será rigorosamente acompanhado e fiscalizado pela população.

Nós, brasilienses, temos muito orgulho da nossa cidade e do nosso povo nascido, criado ou estabelecido aqui. Costumamos lembrar aos que usam o nome de Brasília associado à corrupção e à má utilização dos recursos públicos que os maiores bandidos que por aqui circulam são peregrinos vindos dos demais Estados, que disponibilizaram seus nomes aos nativos e por eles foram escolhidos para representá-los, nesta Unidade da Federação. Vivem à parte da nossa sociedade, servidos por poucos prestadores de serviços, que devem cumprir regras complicadas para ter o direito de atendê-los. Até preferimos dispensar a sua companhia porque, quando usam serviços próprios da comunidade, acabam provocando majoração superficial no nosso custo de vida. É que, por serem agraciados com remunerações muito acima da média da população, podem adquirir o que querem, especialmente imóveis, por preços também muito acima da média nacional, enquanto ficamos a ver navios. Nós, brasilienses carinhosamente apelidados de candangos, como todos os cidadãos de bem deste País, abominamos as práticas vergonhosas típicas dos ambientes restritos aos Poderes constituídos através do seu, do meu, do nosso voto.

 

 

 
 

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