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Em
várias oportunidades viajando pelo País,
tenho me deparado com indagações e
afirmações variadas sobre como é e como
funciona a rotina da nossa Capital.
Sou
leitora de poemas e crônicas de autores
que, como eu, divulgam suas obras e seus
textos em sites da língua portuguesa. Há
alguns dias, na importante Comunidade
Maytê,
deparei-me com um título que, de pronto,
me chamou a atenção: “BRASÍLIA SERVIU
ATÉ HOJE PARA QUÊ?” Um pouco
incomodada, pus-me a ler o texto em
destaque na coluna “Opinião”. Para
melhor entender a posição exposta, fui
ver a biografia do autor, Sr Aquiles Rique
Reis, e imediatamente lembrei-me que
sempre gostei de ouvir suas interpretações,
já que é também um dos componentes do
famoso Grupo Musical MPB-4, do qual possuo
LP e CD.
Já
que se trata de opinião, resolvi também
dar a minha, que não será de fã para ídolo,
mas de cidadã para cidadão. Nada contra
o autor, apenas estou pegando este gancho
para mostrar especialmente àqueles que vêem
Brasília como berço da corrupção, que
existem
elementos importantes para ajudá-los
a conhecê-la antes de julgá-la.
No
seu texto, Aquiles demonstra que
desconhece a história desta cidade de
apenas 45 anos de idade, quando afirma que
sua existência não faz a menor diferença.
Nos dois primeiros parágrafos, com todo o
respeito à sua opinião de que foi uma
“idéia de jerico” de Juscelino
Kubitschek transferir a Capital do Rio de
Janeiro para cá, gostaria de lembrar que,
em 1823, José Bonifácio já apresentava
à Constituinte projeto de transferência,
sugerindo o nome Brasília para a nova
capital. Em 1892, foi nomeada uma comissão,
denominada Missão Cruls, que, depois de
dois anos de estudos, demarcou uma área
de 14.400 km², conhecida como Quadrilátero
Cruls, considerada adequada para a instalação
da futura capital; e em 1922, foi colocada
a pedra fundamental da cidade de Brasília
em um local perto de Planaltina (GO).
Nasci
nesta região e tenho residência fixa
aqui há 38 anos. Ao contrário de alguns
que encontrei pelas minhas caminhadas,
estou convencida de que, para milhões de
outros brasileiros, Brasília fez e faz
muita diferença sim. Vi na biografia do
Aquiles que ele viveu praticamente toda a
sua vida no eixo Rio-São Paulo e
em Niterói. Talvez
não seja do seu conhecimento que, naquele
ano de 1960, levava-se três dias e duas
noites para percorrer, por terra, os
1.200 km
que separam o interior de Goiás do Rio de
Janeiro. Eu mesma fiz essa viagem e sei o
quanto era arriscada e cansativa.
Compreendo que não lhe foi possível
acompanhar a integração das regiões
Norte e Centro-Oeste com o resto do País
e o seu conseqüente desenvolvimento. Era
tão somente metade do território
nacional abarrotado de riquezas pouco
exploradas, mão de obra quase cem por
cento desqualificada e economia baseada
apenas no atendimento às necessidades básicas
de uma população, sem perspectivas de
melhoria das condições de conforto,
educação e saúde e seus conseqüentes
desdobramentos.
Há
que se lembrar que as riquezas aqui
existentes serviram de imediato para
fortalecer as indústrias metalúrgicas,
madeireiras e de laticínios, e que as
obras de construção da cidade geraram
milhares de empregos em todas as áreas da
economia, causando um boom, a partir da
trilogia dinamismo, trabalho e
enriquecimento de muitas empresas e até
de pessoas físicas de todos os recantos
do País, que acreditaram e investiram no
empreendimento.
Consideremos
também os desdobramentos na geração de
novos serviços na região beneficiada,
como Construção Civil, Água e Energia,
Educação, Saúde, Transportes,
Beneficiamento de Grãos e de Derivados do
Leite. A mão de obra local, por ser
despreparada, recebeu reforço de
especialistas insatisfeitos e ávidos por
sair do marasmo em se encontravam nos
grandes centros urbanos. Esses e todos os
que ofereceram seus serviços à execução
do projeto fizeram um bom pé-de-meia
rapidamente. Funcionários Públicos
Federais, a grande maioria morando em
condições precárias nos subúrbios do
Rio de Janeiro e endividadas, ganhavam até
cinco salários a título de ajuda de
custo, dois anos de “dobradinha”,
apartamento funcional no centro da cidade
e outras mordomias, para servir na nova
Capital. Conheci gente bastante sincera
que beijava o solo de Brasília, em sinal
de gratidão; outros declaravam que iam ao
Rio de férias com a família para curtir
a praia, programa que não faziam quando
estavam lá por falta de condições
estruturais.
Eu
e minha família fazemos parte de um grupo
de milhares de pessoas que têm raízes
nesta região e que aqui mudaram e/ou
construíram a sua história de vida. Já
somos quatro gerações beneficiadas com a
transferência da Capital. Estamos certos
de que o nosso futuro pensado ontem, o
nosso presente e a realização dos nossos
ideais estão estreitamente vinculados à
existência desta cidade. Respeito a posição
do meu ídolo quando afirma que
se ela
acabasse hoje, falta nenhuma haveríamos
de sentir, mas devo dizer-lhe que
quase todos os brasileiros, de uma ou de
outra forma, têm uma dívida de gratidão
a JK pela iniciativa audaciosa de
implementar esta obra, que beneficiou
principalmente os cidadãos que andavam
sem horizonte e sem perspectivas por este
País afora.
Portanto,
Brasília já nasceu mãe de muita
gente e adotou ou gerou filhos
maravilhosos, que se orgulham dela. Na
música, podemos citar Renato
Russo, Dinho Ouro Preto (Capital Inicial),
Herbert Viana (Paralamas do Sucesso), Zélia
Duncan, Oswaldo Montenegro, Ney Matogrosso,
Fred (Raimundos); nos esportes, Nelson
Piquet (automobilismo), Kaká (futebol),
Oscar Schimit (basquete), Marilson
Gomes dos Santos (atletismo), César
Castro (saltos ornamentais), Hugo Parisi
(salto sincronizado), Rebeca Gusmão (natação),
Mariana Ohata (triatlo), Leandro Macedo (triatlo),
Luiza Rocha (boliche), Gabriela Crivelaro
(ginástica rítmica desportiva); nas
Artes, Françoise
Fourton e Guilherme Reis (atores); nas
Letras, Gustavo
Dourado (Amargedom) e Vânia
Moreira Diniz (escritores), e
muitos outros.
Orgulhamo-nos
de ter uma das melhores Universidades Públicas
do País e dezenas de outras particulares,
a mais bela ponte do mundo – a recém
inaugurada Ponte JK -, um dos mais
maravilhosos pores-do-sol do planeta, a
melhor qualidade de vida das Capitais
Brasileiras juntamente com Curitiba, um
sistema de atendimento ao cidadão
eficiente (testei-o recentemente e fiquei
maravilhada), avenidas largas e
arborizadas, respeito às faixas de
pedestres e às regras de trânsito - aqui
não se usa buzina; temos consciência
ecológica e política; capacidade de
conviver com as mais variadas manifestações
culturais do País e do Exterior com
atitudes, ao mesmo tempo, de respeito e
absorção dos sotaques e hábitos,
recebidos com boa vontade e incorporados
naturalmente à rotina de todos, num processo
de enriquecimento constante da cultura
local.
A
maioria dos residentes gosta de viajar
para o litoral no verão, mas volta cheia
de saudades da mordomia que é viver
aqui. Desta mordomia gostamos e até
queremos mais.
A
corrupção e os desmandos políticos
ocorrem no Brasil desde a sua colonização
e tudo o que se vê hoje aqui, seria visto
em qualquer outro lugar, especialmente na
antiga capital, de onde é até mais fácil
sair com malas de dinheiro para os paraísos
fiscais, fazer conchavos com o mundo do
crime, varrendo para debaixo do tapete o
lixo que caracteriza o comportamento
evidenciado recentemente na maioria dos
nossos políticos e seus beneficiários. A
população brasiliense nada tem a ver com
isso. Tanto é verdade que tradicionalmente
escolhe candidatos comprometidos
exclusivamente com seus anseios.
Elegeu para o Governo do Distrito Federal
o Sr Joaquim Roriz, pela quarta vez.
Trata-se de um cidadão oposicionista ao
Governo Federal eleito em 2002, nascido
aqui e que tem seus próprios
interesses integrados aos da população.
Encerra este ano seu último mandato com o
aplauso da grande maioria das pessoas, a
despeito de todas as tentativas de
desestabilizá-lo por parte de seus
opositores. Sai contando com o apoio de
todos os candidatos bem cotados à sua
sucessão e que disputam a sua preferência,
cientes de que o eleito, mesmo com o apoio
dele, será rigorosamente acompanhado e
fiscalizado pela população.
Nós,
brasilienses, temos muito orgulho da nossa
cidade e do nosso povo nascido, criado ou
estabelecido aqui. Costumamos lembrar aos
que usam o nome de Brasília associado à
corrupção e à má utilização dos
recursos públicos que os maiores
bandidos que por aqui circulam são
peregrinos vindos dos demais Estados,
que disponibilizaram seus nomes aos
nativos e por eles foram escolhidos para
representá-los, nesta Unidade da Federação.
Vivem à parte da nossa sociedade,
servidos por poucos prestadores de serviços,
que devem cumprir regras complicadas para
ter o direito de atendê-los. Até
preferimos dispensar a sua companhia
porque, quando usam serviços próprios da
comunidade, acabam provocando majoração
superficial no nosso custo de vida. É
que, por serem agraciados com remunerações
muito acima da média da população,
podem adquirir o que querem, especialmente
imóveis, por preços também muito acima
da média nacional, enquanto ficamos a ver
navios. Nós, brasilienses carinhosamente
apelidados de candangos, como todos os
cidadãos de bem deste País, abominamos
as práticas vergonhosas típicas dos
ambientes restritos aos Poderes constituídos
através do seu, do meu, do nosso voto.
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