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Jornal'Ecos
da Literatura Lusófona
Paris & Brasília
10 de Dezembro de
2006 - Edição N°54
| A
Coluna de.......... |
Fernanda
Hanna |
Brasil
|
Pág.
140 |
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Da
capacidade para ser seletivo e das relações
interpessoais
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“Life is a mystery, everyone must
stand alone...” *
De um tanto quanto ousado, este
pequeno ensaio visa um
desenvolvimento sensato para a idéia
que lhe originou.
Ler, buscar conhecimento, interagir
com seus pares e com o mundo
trocando experiências, é o meio
pelo qual o indivíduo forma a própria
razão.
Delineada por aquela, tem-se a a
possibilidade de uma vida desprovida
de erros indesejáveis.
Selecionar é o verbo no mundo do
individualismo. Tem-se por verdade
que, quanto maior a capacidade
cognitiva, o 'nível' sócio-cultural,
mais racional é o indivíduo.
Portanto, mais seletivo se torna a
cada instante que sua vida acontece.
Nas relações interpessoais,
definem-se critérios, requisitos
desejados, não raro, objetos que suprirão
necessidades primárias, se o outro
for exatamente o objeto pleiteado,
quando, em verdade, deveria o indivíduo
ser auto-suficiente neste aspecto,
para então partir em busca de um
'par ideal'. E ter o que oferecer.
Mas, questiona-se, até onde há
precisão no método e qual a
garantia de que haverá sucesso?
Neste prisma, muitos indivíduos
deixam de ser passar pelo crivo da
seleção por, sequer, vencerem a
lei da seleção natural. Será que
apenas os bons permanecem? Como
saber, sem lançamento?
Novamente questiona-se, o qual a
definição de 'bom'?
Não se pode avaliar a capacidade de
alguém sem permanecer ao seu lado
em absoluto silêncio. Qualquer
tentativa diversa desta, será tempo
perdido. Não se pode dizer que o
indivíduo mostra-se mais capaz do
que efetivamente é, sem permanecer
ao seu lado, deixando de lado, o
observador, a imagem que vê quando
coloca-se diante do espelho. O
espelho de quem analisa é o outro,
e só ele. Analisar não é ato
expresso, demanda tempo. Dedicação.
Abdicação. Talvez até renúncias.
Neste ato devem entrar em ação o
instinto e alguma dose de emoção,
para que exista equilíbrio.
Objetivamente, o bom é aquilo que não
é ruim, avaliado por consenso
geral. Subjetivamente, o que pode
ser bom para um, para outro pode ser
visto de outra maneira, ruim, ou,
aceitável.
O fato, é que excesso de
questionamentos, buscas ansiosas e
vertiginosas conduzem à cegueira
pessoal e culminam por impedir
encontros de pares que bem poderiam
entender-se ou, ainda, distanciá-los,
sem olvidar da perfeita combinação
moderna do já dito individualismo
com o egocentrismo.
Desta feita, não se vê, sem que
alterada a rota, para eventuais cessões
e concessões, meio de sucesso para
relações interpessoais pautadas e
amparadas pelas características
sobreditas.
Existem possibilidades, porque, a
despeito de todos os mistérios que
a vida possa apresentar, não é
plausível, tampouco acalantador,
que as pessoas permaneçam sós.
De outra banda, não se pode deixar
de referir itens importantes do
comportamento humano, quais sejam, a
capacidade mutante e/ou mutável, ou
auto-desconhecimento e a questão da
lealdade.
O ser humano está sujeito às variações
e intempéries pelas quais a vida
lhe impuser passar e tem a
capacidade incrível de adaptar-se.
Com raras exceções, o humano é
mutante e/ou mutável, e o faz a
cada instante, ainda que não
perceba. Faz, desde que a situação
o exija. Adequa-se silenciosamente,
segundo aquilo que lhe interessa no
momento ou almejando algo futuro.
Seria hipocrisia, negar tal característica,
ausente em casos raríssimos.
Talvez, aqueles que, de tão
abnegados, renegam às próprias
vidas.
O humano desconhece-se a tal ponto
de, ao apresentar-se a outro, ser
capaz de mostrar-se como gostaria de
ser e não o que ou quem
efetivamente é. Egoísta, suprime
informações importantes. Algumas,
inclusive que têm por finalidade
promover-lhe, alcançar seu intento,
seja ele qual for. E nesta
empreitada, acredita tanto na
persona com a qual se apresenta que
a faz “real”. Tão real, tão
bem embasada que, à primeira vista
e ainda por algum tempo, crível. O
tempo de queda da máscara. O tempo
que levam as cortinas para baixarem
e a caixa preta para tornar-se
reclusa. Erra, ainda, ao tentar ser
quem não é. Não importanto a
intenção de tal ato.
Por fim, resta falar da lealdade,
que, considerando as características
sobreditas, irreal e desprovida de
concretude, tampouco poderá ser
praticada.
Se a vida permite uma reconciliação
do humano com o tempo, esta é possível
à medida em que este último vença
aquele, trazendo consigo e
incutindo-lhe a maturidade, o
crescimento pessoal e espiritual**,
transformando aquela semente inicial
de humano em humano de verdade,
capaz de ser, estar, respirar, amar
e respeitar o próximo, tal qual
deseja que tais tornem a si.
Neste parâmetro, capaz de ser
seletivo e justo, apto e fazendo jus
ao encontro do objeto desejado, de
forma que, a seleção será, apenas
um meio de livrar-se de encontrar
aquilo que eventualmente possa ter
sido. Porque encontros desta
natureza não têm qualquer
finalidade positiva, restando
frustrantes e infrutíferos.
Sem olvidar, claro, que o mundo em
que vivemos é rendondo, dá voltas
e viver será sempre pautado pela
capacidade de arriscar-se.
São Paulo, 07 de dezembro de 2006,
o ano e o mês do primeiro título!!!
*Like a prayer, Madonna
**espiritual:livre de associação
de cunho religioso.
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Quem
é: Fernanda Hanna |
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à autora
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Fernanda Hanna
Paulista de Ribeirão Preto, radicada na
Capital há 8 anos. Enveredou-se pelos caminhos da
literatura e da poesia por amor. Publica nos sites Anjos Caídos,
Recanto das Letras e Palanque Marginal, entre outros. Inspira-se em Carlos
Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Dostoiéviski,
Niestchze, Kafka, Maquiavelli, Emile Kurheim e muitos outros. Leitora
obsessiva, sempre atrás de boas novidades, em constante busca do
humano que há, ou deveria, nos seres. Escreve para "não
sufocar".
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