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Hoje
acordei bem cedinho, para ir a um
laboratório de análises clínicas,
fazer uns exames de sangue, que já
vinha adiando por algumas semanas. Coisa
de rotina, mas que sempre gera uma certa
expectativa. O pior, para mim, não é
colher o sangue, mas ter de ficar doze
horas em jejum, e sair de casa sem meu
sagrado café da manhã.
Escolhi
um bom laboratório de minha confiança
e lá fui eu toda disposta, como quem
vai fazer uma visita a uma velha amiga.
Para minha satisfação, o laboratório
fica no prédio de um shopping, e sou
“obrigada” a passar por todas
aquelas vitrines convidativas, quase
sempre com aquelas fantásticas tarjas
vermelhas indicando liquidação.
Chego
ao grupo de salas do laboratório, pego
a minha senha e verifico que não estava
longe de ser chamada. Sento-me
calmamente entre duas senhoras
perfumadas e começo a observar o
ambiente.
Antigamente
os laboratórios pareciam filiais de
hospitais, com o cheiro de éter
característico inebriando o ar,
deixando os pacientes algo “aéreos”,
mas com aquele enjôo típico de quem
entra num nosocômio, além de escuros e
com equipe sem treinamento adequado.
Agora não, são todos decorados em tom
pastel, para dar a sensação de
aconchego. O cheiro está mais para
desinfetante com fragrância de jasmim,
do que para algum medicamento. A decoração
é clara e limpa, com poucos detalhes. A
maquininha de senha logo na entrada,
embora prática e bem civilizada, ainda
confunde determinadas pessoas não muito
afeitas a modernidades, forçando-as a
interromper o trabalho das atendentes,
para questionar onde ficava o início da
fila. Naqueles poucos minutos que
aguardei ser chamada, notei umas três
pessoas sem saber como usar a tal
parafernália contemporânea.
Comecei
a notar os rostos ali presentes, e a
imaginar o que se passava com cada um
ou, ao menos, o que estariam pensando
naquele momento.
Percebi
um senhor de idade avançada, porém
completamente independente (e que fazia
questão de demonstrar isso), com a
fisionomia contraída, denotando certa
preocupação. Talvez estivesse
aguardando algum resultado. Ele olhou o
relógio por umas cinco vezes em menos
de dois minutos. Pensei que pudesse
estar esperando por alguém que já
tivesse entrado numa das saletas de
coleta, mas não, ele esperava sua vez.
Ao
seu lado, uma senhora pálida, com um
lenço amarrado bem justinho à cabeça,
possivelmente para disfarçar a alopécia
provocada por uma quimioterapia avançada.
Ela estava acompanhada de um senhor
muito atencioso, que julguei ser seu
esposo.
Ao
lado dele, uma criança acompanhada pela
mãe, carinha assustada, devendo ter
entre quatro e cinco anos de idade, abraçada
a um “mais assustado ainda” ursinho
de pelúcia.
Isso me chamou a atenção para o
sentimento de uma criança que vai
colher sangue. Os laboratórios deveriam
pensar nessa clientela especial, e ter
mais descontração na sala de espera,
uma decoração mais alegre e divertida,
ou alguma sala especial para crianças,
com brinquedos, vídeos e cores alegres.
Próximo
a elas, estava a senhora perfumada, ao
lado de quem me sentei. Usava óculos
escuros, apesar do ambiente com pouca
luminosidade, e ostentava um nariz
empinado casual. Seu olhar, mesmo por trás
dos óculos, fuzilou o jovenzinho alto e
magro, pálido e de aspecto frágil, que
acabara de entrar e apanhar a senha. Ele
estava nitidamente desconfortável com a
análise da preconceituosa senhora, que
o condenou a uma doença “de jovens
promíscuos”. Quase podia enxergar seu
sorriso sarcástico no canto da boca,
como a torcer para que seu resultado
desse positivo para um desses vírus que
andam por aí.
O
rapazinho, possivelmente com alguma
virose oriunda da debilidade natural de
sua fase de crescimento, recolheu-se a
um cantinho no fundo da sala.
Do
meu outro lado, a outra senhora
cheirosa, que balançava freneticamente
o pedido de exame, como que para mostrar
ou dar indícios de sua patologia
presumivelmente grave. Fiz
de tudo para não ver o que
estava escrito, e quanto mais eu me
virava, mais ela aproximava o papel do
meu rosto. No fim das contas, deveria
ser algum pré-operatório de plástica
de pálpebras.
Nisso
entra um casal, na faixa dos 35 anos,
ambos com a expressão apreensiva,
tristes, talvez fazendo exames para
entenderem a razão do bebê não vir.
A
campainha toca e levantam-se mãe e
filha, para o registro dos exames da
menina (e do ursinho). Ouço a mãe
comentar com a filha que não doía
nada, que era só uma picadinha de
mosquito. A menina arregalou os olhinhos
e sufocou o ursinho. Ora vejam, na cabeça
daquela pobre criança, o mosquito
deveria ser um ET imenso, com antenas
pontiagudas que iriam perfurar sua pele,
na mais cruel das torturas infantis.
Posso estar errada, mas é um atentado
à inteligência e raciocínio lógico
das crianças. Que mania que as pessoas
têm de inventar desculpas grotescas
para o simples, que acabam mais
complicadas que a verdade! Bicho-papão,
mão-pelada, mula-sem-cabeça,
mosquitinho-injeção...
francamente! Muito mais simples
dizer a verdade. Usar de psicologia que
qualquer adulto é capaz de presumir,
quando se trata de consolar uma criança.
Que mané mosquitinho! É uma agulhinha
de criança. Pronto! Uma coisinha
fininha que é colocada junto da pele e
que pega um tiquinho do sanguinho
rapidinho. Pronto! Simples! Se a criança
perguntar se dói, claro que dói um
pouquinho! Mas a criança crescidinha
como ela não costuma se incomodar muito
não. Só os bebezinhos que ainda fazem
xixi na cama é que abrem um berreiro
sem motivo.
E também, se a filhinha for
corajosa e confiar na mamãe, será
motivo de muito orgulho para o papai, a
vovó, o vovô, o irmão mais velho, a
titia. Já pensou? Tirou sanguinho e não
chorou? Muito brava mesmo...
Estava
distraída com minha campanha
inconsciente em prol das crianças
tratadas como amebas, quando a campainha
soa e levanta-se a perfumada empinada,
cujo sangue era vermelho como o dos
demais, e as fezes (ela tirou um potinho
camuflado da bolsa) tinham o mesmo odor
(ou pior) que as de qualquer pobre
mortal.
Logo
a seguir entra o casal para a coleta, e
o marido, todo atencioso, conduz sua
dama para a cadeira e fica ao seu lado o
tempo todo. A doença pode até ser
grave (o que realmente é), mas a
grandeza daquele amor, daquele carinho,
certamente o melhor antídoto.
Chega,
então, a minha vez: técnica de
enfermagem supersimpática e falante,
coleta impecável, sem intercorrências.
Ouço o choro desconsolado da
garota do mosquitinho na saleta ao lado
e penso o quanto isso tudo é cruel.
Lembrei-me de uma passagem com meu filho
mais velho, em pré-operatório de extração
de amígdalas, com apenas dois aninhos.
Sentei-me com ele no colo, expliquei o
que ia acontecer. Ele, do alto da
nobreza de seus dois aninhos, estica o
bracinho por sobre a braçadeira, e
permite que a moça aperte o garrote.
Quando ela me acena que a seringa estava
pronta, quem quase teve um treco fui eu.
Dei um pinote, peguei o sapato e fingi
dar uma sapatada na parede, gritando que
tinha uma formiga ali. Meu filho
virou-se e esqueceu do braço,
perguntando: - “cadê miga, mã?”
A
mãe deu umas três ou quatro sapatadas
na parede, e a coleta do filhote
transcorreu sem uma lágrima sequer,
apenas um desconforto, ao que mamãe
retrucou que deveria ser a tal formiga
se vingando. Enfim, mãe faz o que pode,
mas o raio da agulha dói mais na gente,
podem acreditar.
Saio
da saleta com um sorriso nos lábios e
uma fome danada!
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